{"id":1858,"date":"2012-02-23T00:00:00","date_gmt":"2012-02-23T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/desfazer-o-desenvolvimento-para-refazer-o-mundo\/"},"modified":"2026-08-21T15:10:21","modified_gmt":"2026-08-21T18:10:21","slug":"desfazer-o-desenvolvimento-para-refazer-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/desfazer-o-desenvolvimento-para-refazer-o-mundo\/","title":{"rendered":"DESFAZER o desenvolvimento para REFAZER o mundo"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"344\" src=\"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/desfazer.jpg\">Os artigos de Desfazer o desenvolvimento para refazer o mundo s\u00e3o o resultado do col\u00f3quio hom\u00f4nimo organizado em 2002, em Paris, pela associa\u00e7\u00e3o francesa La Ligne d&#8217;Horizon e a revista Le Monde Diplomatique e assumido pelo programa MOST (Management of Social Transformations), da Unesco.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nO objetivo do evento foi discutir o modelo econ\u00f4mico da globaliza\u00e7\u00e3o e a \u201cideologia do progresso\u201d, bem como alternativas para o \u201cp\u00f3s-desenvolvimento\u201d.<\/p>\n<p>O Planeta v\u00ea-se hoje diante de uma encruzilhada: crise do sistema financeiro, crise da \u201ceconomia real\u201d, dilapida\u00e7\u00e3o dos recursos da Terra, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas\u2026<br \/>\n\u00a0<br \/>\nEstudiosos de diversas nacionalidades e forma\u00e7\u00f5es \u2013 autores dos ensaios contidos neste livro \u2013 posicionam-se ante o modelo de desenvolvimento empreendido pelas modernas sociedades capitalistas, assumindo teses talvez controversas para o leitor. Ao colocarem em xeque conceitos &#8220;normalmente aceitos&#8221; de desenvolvimento, pobreza\/riqueza, necessidade e mesmo mundializa\u00e7\u00e3o, eles estimulam uma reflex\u00e3o fundamental sobre valores e concep\u00e7\u00f5es que norteiam as escolhas feitas, quer na esfera p\u00fablica (governo, sociedade civil organizada, corpora\u00e7\u00f5es), quer na esfera privada do cidad\u00e3o individualmente.<\/p>\n<p>ANTES DO DESENVOLVIMENTO<\/p>\n<p>O desenvolvimento econ\u00f4mico costuma ser apresentado como uma panaceia. N\u00e3o h\u00e1 um s\u00f3 governo que n\u00e3o fa\u00e7a de tudo para implant\u00e1-lo ou para impulsion\u00e1-lo o m\u00e1ximo poss\u00edvel, quaisquer que sejam as consequ\u00eancias sociais, ecol\u00f3gicas e morais. No entanto, por mais estranho que pare\u00e7a, o termo quase nunca \u00e9 definido. Certamente, ele deriva da no\u00e7\u00e3o de desenvolvimento em biologia, que descreve a forma\u00e7\u00e3o do embri\u00e3o no \u00fatero materno. Seu uso despudorado, mas h\u00e1bil, subentende que os pa\u00edses pobres em bens materiais e t\u00e9cnicos, ou &#8220;subdesenvolvidos\u201d, deveriam apenas aguardar a maturidade \u2013 portanto, mediante um processo totalmente natural \u2013 para transformarem-se em r\u00e9plicas perfeitas dos Estados Unidos da Am\u00e9rica.<br \/>\n\u00a0<br \/>\n<span>Na verdade, \u00e9 imposs\u00edvel imaginar um processo menos natural do que esse. Para come\u00e7ar, a fim de se adaptar aos progressos considerados desej\u00e1veis, o desenvolvimento imp\u00f5e cont\u00ednuas mudan\u00e7as de dire\u00e7\u00e3o. Ora, talvez noventa e nove por cento da experi\u00eancia humana no Planeta tenham ocorrido em comunidades rivais que, na verdade, se dedicavam \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da estabilidade frente \u00e0 mudan\u00e7a.<br \/>\n\u00a0<br \/>\n<\/span>Assim, para os abor\u00edgenes da Austr\u00e1lia, o <i>ethos<\/i>, segundo William E. H. Stanner, era &#8220;a\u00a0comunidade, a const\u00e2ncia, o equil\u00edbrio, a simetria e a regularidade [\u2026]. O fato de as coisas serem imut\u00e1veis, de a vida manter seu curso familiar e segura, e o que [tinha] valor aos olhos deles [\u2026]. N\u00e3o [foi] apenas um povo desprovido de hist\u00f3ria, mas um povo capaz, por assim dizer, de vencer a hist\u00f3ria, de tornar-se anti-hist\u00f3rico em termos de esp\u00edrito e de sentimento&#8221; (Stanner, 1956).<br \/>\n\u00a0<br \/>\nPara o homem moderno, isso sugere uma vida triste e mon\u00f3tona. Mas a Hist\u00f3ria, por acaso, traz felicidade? Edward Gibbon, o famoso autor de Decl\u00ednio e queda do imp\u00e9rio romano (1776), duvidava disso e, aparentemente com alguma raz\u00e3o, escrevia: &#8220;O que \u00e9 a Hist\u00f3ria sen\u00e3o o registro dos crimes, das loucuras e das desgra\u00e7as da humanidade?&#8221;<br \/>\n\u00a0<br \/>\nO fato \u00e9 que as sociedades tribais n\u00e3o deixaram de rebater a coloniza\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento que lhes sucedeu. Seus membros se revelavam ferozmente hostis \u00e0 pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o em oper\u00e1rios assalariados. Da\u00ed as dificuldades que a Companhia das Minas de Carv\u00e3o de Enugu, na Nig\u00e9ria \u2013 entre tantas outras \u2013 encontrou para contratar m\u00e3o-de-obra. Agwu Akpala (cf. I973) narra que seus dirigentes s\u00f3 conseguiam recrut\u00e1-los \u00e0 for\u00e7a. Todos os dias, setecentos mineradores desapareciam e n\u00e3o eram mais vistos, a n\u00e3o ser que tivessem a infelicidade de serem recapturados. Ent\u00e3o os diretores serviram-se dos chefes locais para obrigarem seus s\u00faditos a trabalhar, e esses chefes eram pagos por trabalhador recrutado. No in\u00edcio, aqueles que se recusavam a obedecer aos chefes eram multados, mas chegou-se at\u00e9 a conden\u00e1-los a trabalhos for\u00e7ados.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nA raz\u00e3o \u00e9 clara. O etn\u00f3logo Marshall Sahlins observa que &#8220;a economia tradicional se insere nas rela\u00e7\u00f5es sociais. Sua base de a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a empresa, mas a fam\u00edlia, a comunidade&#8221; (Sahlins, 1971). Para um homem tribal a fam\u00edlia e a comunidade, bens insepar\u00e1veis do mundo natural, oferecem todos os benef\u00edcios. A incr\u00edvel solidariedade que liga os membros entre si evita que passem fome ou caiam na mis\u00e9ria, a n\u00e3o ser que o grupo todo sofra esses males. E a pior puni\u00e7\u00e3o para um membro que transgride a lei tradicional \u00e9, sem duvida, a expuls\u00e3o da comunidade. Em 1970, nas ilhas Comores, garantiram-me que um wahamatsa condenado ao ostracismo e menosprezado era um homem morto.<\/p>\n<p>Todavia, a fam\u00edlia e o grupo s\u00f3 podem resistir e oferecer benef\u00edcios se cada um dos membros cumpre as tarefas que lhe cabem, tarefas que, numa sociedade moderna, dependem das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e da economia formal. Trata-se da produ\u00e7\u00e3o, da prepara\u00e7\u00e3o e da distribui\u00e7\u00e3o dos alimentos, da educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, dos cuidados com as pessoas idosas e doentes, da organiza\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o de in\u00fameros rituais, do respeito \u00e0 lei, da manuten\u00e7\u00e3o da ordem e da condu\u00e7\u00e3o dos assuntos comunit\u00e1rios. \u00c9 importante sublinhar a gratuidade desses servi\u00e7os resultantes do elaborado jogo de obriga\u00e7\u00f5es m\u00fatuas na fam\u00edlia e no grupo.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nAl\u00e9m disso, essas pessoas tinham a satisfa\u00e7\u00e3o de saber que o futuro delas e de seus filhos estava assegurado, a n\u00e3o ser que ocorressem incidentes graves. Como j\u00e1 foi dito, sua arte de viver podia ser perpetuada. Moravam em pequenas aldeias praticamente autossuficientes, pouco expostas a descontinuidades, como as epidemias. Eram capazes de controlar as atividades suscet\u00edveis de quebrar a estrutura social ou degradar o ambiente natural. Esse controle, em vez de ser exercido autoritariamente pelas institui\u00e7\u00f5es, derivava da cultura.<\/p>\n<p>O grande antrop\u00f3logo Gerardo Reichel-Dolmatoff demonstra, por exemplo, que a mitologia dos \u00edndios tucano, na Col\u00f4mbia, legitima um sistema de proibi\u00e7\u00f5es que refreia as tend\u00eancias nocivas &#8220;ao crescimento da popula\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o do ambiente f\u00edsico e as rela\u00e7\u00f5es interpessoais agressivas&#8221; (Reichel-Dolmatoff, 1977). Sem esse sistema eficaz de controle, tais sociedades n\u00e3o teriam podido sobreviver por s\u00e9culos e mil\u00eanios, muit\u00edssimas vezes at\u00e9 a chegada dos brancos investidos de uma miss\u00e3o colonizadora.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nA essa altura, compreende-se que o homem tribal, a n\u00e3o ser que fosse duramente obrigado, recusasse um trabalho entediante e sem-sentido, distante da fam\u00edlia e do grupo, numa empresa comercial criada pelo poder colonial. Al\u00e9m disso, compreende-se que uma sociedade, cuja economia se baseava nas rela\u00e7\u00f5es sociais ou, mais precisamente, em rela\u00e7\u00f5es de parentesco, n\u00e3o se transformasse facilmente numa sociedade baseada em rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impessoais e associais.<br \/>\n\u00a0<br \/>\n\u00c9 por isso que, normalmente, n\u00e3o se vendiam objetos, em beneficio pr\u00f3prio, a fam\u00edlia ou a comunidade (que nada mais eram sen\u00e3o uma extens\u00e3o da fam\u00edlia). Na verdade, existe um profundo conflito entre comportamento familiar e comportamento mercantil. Isso \u00e9 t\u00e3o verdadeiro que o mercado s\u00f3 triunfa desintegrando as rela\u00e7\u00f5es de parentesco tradicionais.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nTudo isso leva a pensar que sociedade tribal n\u00e3o se transformou por iniciativa pr\u00f3pria. O\u00a0desenvolvimento s\u00f3 pode derivar de uma descontinuidade, provocada por algo que, tempos atr\u00e1s, era chamado de colonialismo, rebatizado depois &#8220;desenvolvimento econ\u00f4mico\u201d, no interesse imediato das grandes companhias. Porque essas duas opera\u00e7\u00f5es dividem um objetivo comum, satisfazer o apetite voraz dos industriais.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nNas d\u00e9cadas de 1880 e 1890, era esse, de fato, o objetivo da disputa fren\u00e9tica pelas col\u00f4nias, objetivo enunciado claramente por seus ardorosos partid\u00e1rios. Assim afirmava Jules Ferry, em 1885, diante da C\u00e2mara dos Deputados da Fran\u00e7a: &#8220;Num pais como o nosso, cujo car\u00e1ter mesmo da ind\u00fastria est\u00e1 ligado a consider\u00e1veis exporta\u00e7\u00f5es, a quest\u00e3o colonial \u00e9 vital para as quest\u00f5es de mercado [\u2026]. Desse ponto de vista, a funda\u00e7\u00e3o de uma col\u00f4nia representa a cria\u00e7\u00e3o de um mercado\u201d.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nAs companhias n\u00e3o exigiam apenas mercados, mas um vasto contingente de m\u00e3o-de-obra e de mat\u00e9rias-primas a baixo custo \u2013 acrescentava, por sua vez, Cecil Rhodes, pai da Rodesia, e Paul Leroy Beaulieu, na influente obra <i>A coloniza\u00e7\u00e3o nos povos modernos<\/i> (1884). Da\u00ed, a grande aventura das col\u00f4nias, at\u00e9 o final da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelo fim das hostilidades, os homens de neg\u00f3cios e os pol\u00edticos norte-americanos deram-se conta de que o colonialismo n\u00e3o seria mais sustentado no p\u00f3s-guerra. A confer\u00eancia de Bretton Woods, em 1944 j\u00e1 proclamava um substituto para esse sistema.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nAdotar-se-ia o livre intercambio mundial, aparentemente com plena equidade. Mas, entre s\u00f3cios t\u00e3o desiguais, houve um retorno ao imperialismo econ\u00f4mico, concebido para levar os pa\u00edses do Terceiro Mundo para a \u00f3rbita do sistema industrial ocidentaI, de modo que as grandes empresas pudessem domin\u00e1-lo de maneira bem mais eficaz, por\u00e9m muito menos vis\u00edvel, em compara\u00e7\u00e3o com o colonialismo. Esse substituto seria chamado de &#8220;desenvolvimento econ\u00f4mico\u201d.<\/p>\n<p>O instrumento mais eficaz do colonialismo econ\u00f4mico consiste na ajuda aos pa\u00edses em via de desenvolvimento. A ajuda n\u00e3o foi concebida para difundir o bem-estar, mas serve para financiar as \u00a0infraestruturas necess\u00e1rias ao duplo papel, tanto de mercado para o escoamento dos produtos das companhias ocidentais, quanto de fornecedor de m\u00e3o-de-obra e mat\u00e9rias-primas a baixo custo. Ao mesmo tempo, a ajuda oferece um mercado instant\u00e2neo aos centros de estudo ocidentais chamados para criar essas \u00a0infraestruturas, argumento irresist\u00edvel para os republicanos do Congresso dos Estados Unidos, que de outra forma a recusariam liminarmente.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nA ajuda alimentar certamente se justifica; ali\u00e1s, em caso de carestia, \u00e9 at\u00e9 mesmo necess\u00e1ria. Mas n\u00e3o devemos esquecer que, no p\u00f3s-guerra, todos os pa\u00edses africanos ainda eram autossuficientes, e s\u00f3 as politicas decididas no Exterior os tornaram incapazes de prover \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o do povo. Al\u00e9m disso, a ajuda alimentar \u00e9 geralmente consumida nas grandes cidades e vendida no mercado negro, o que causa grandes preju\u00edzos aos camponeses.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nN\u00e3o bastasse isso, a ajuda oferece ao complacente governo do pa\u00eds rec\u00e9m libertado, raramente amea\u00e7ado por outros pa\u00edses, as armas necess\u00e1rias para dominar as inevit\u00e1veis revoltas das v\u00edtimas do desenvolvimento, cada vez mais numerosas.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nEnfim e, sobretudo, a ajuda \u00e9 eficaz para endividar os pa\u00edses que a recebem, o que fica inevit\u00e1vel t\u00e3o logo a maior parte das infraestruturas projetadas deixa de ser rent\u00e1vel, enquanto os cleptocratas estabelecidos por n\u00f3s extorquem at\u00e9 oitenta por cento do dinheiro investido.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nE f\u00e1cil controlar depois os pa\u00edses endividados, porque suas economias exportadoras, ainda em estado germinal, dependem da continua\u00e7\u00e3o da ajuda e ruiriam caso ela cessasse.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nPara renovar os empr\u00e9stimos, esses pa\u00edses devem concordar com as condi\u00e7\u00f5es leoninas do Fundo Monet\u00e1rio InternacionaI: a impossibilidade de recusar os investimentos estrangeiros e a orienta\u00e7\u00e3o de toda a atividade para as exporta\u00e7\u00f5es. At\u00e9 recentemente, eram-lhes vedadas despesas sociais que n\u00e3o contribu\u00edssem para as exporta\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nTodavia, os servi\u00e7os p\u00fablicos \u2013 educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e servi\u00e7os ambientais \u2013 acabaram de ser abertos \u00e0 concorr\u00eancia mundial, reservando-se para grandes empresas nichos de investimemos favor\u00e1veis, no \u00e2mbito do Acordo Geral sobre o Com\u00e9rcio de Servi\u00e7os (AGCS), sob a \u00e9gide da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC). Essas despesas tornaram-se automaticameme l\u00edcitas e aconselh\u00e1veis.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nEvidentemente, todo pa\u00eds submetido a semelhante regime aceita o aniquilamento da pr\u00f3pria economia interna, que mantinha a popula\u00e7\u00e3o e oferecia-lhe os bens necess\u00e1rios, transformando-se num pa\u00eds de importadores-exportadores dirigidos por um grupo estrangeiro. E\u00a0confia a condu\u00e7\u00e3o de sua economia e de seu povo ao governo n\u00e3o-eleito do FMI, com sede em Washington, capital dos Estados Unidos.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nNesse \u00ednterim, em 1995, depois da cria\u00e7\u00e3o da OMC, as empresas sentiram-se suficientemente poderosas para aplicar o mesmo regime implac\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 aos pa\u00edses que tomam empr\u00e9stimos do FMI, mas, em base permanente, ao mundo inteiro.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nAli\u00e1s, como observa Helena Norberg-Hodge, os neocolonialistas n\u00e3o imp\u00f5em o livre com\u00e9rcio, mas o &#8220;com\u00e9rcio for\u00e7ado\u201d.<\/p>\n<p>Talvez a coisa mais devastadora seja a importa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, pelo Terceiro Mundo, de produtos aliment\u00edcios subvencionados. A \u00cdndia, por exemplo, conta com seiscentos milh\u00f5es de pequenos agricultores, que disp\u00f5em de apenas um hectare, se n\u00e3o da metade disso. Uma minoria resistir\u00e1 \u00e0 concorr\u00eancia, e a maioria ter\u00e1 de abandonar a terra para se refugiar nas favelas. Isso \u00e9 excelente para o desenvolvimento, porque eles ir\u00e3o engrossar a massa ilimitada de m\u00e3o-de-obra barata e mal-alimentada das cidades em expans\u00e3o, liberando suas terras para as opera\u00e7\u00f5es exportadoras da Cargill, da Monsanto e de outros gigantes do agroneg\u00f3cio. E a situa\u00e7\u00e3o na China pode ser ainda pior.<\/p>\n<p>A exporta\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria de alimentos, os quais at\u00e9 alguns anos atr\u00e1s nutriam a popula\u00e7\u00e3o local, n\u00e3o \u00e9 melhor. Nada poderia justific\u00e1-la num pa\u00eds como a \u00cdndia, cujos filhos sofrem, em graus diversos, de desnutri\u00e7\u00e3o, que deixa nas crian\u00e7as marcas profundas no f\u00edsico e na mente para o resto da vida.<\/p>\n<p>No entanto, segundo os termos do Acordo Agr\u00edcola da OMC \u2013 por incr\u00edvel que pare\u00e7a \u2013, se a demanda externa existe, \u00e9 preciso exportar alimentos, mesmo em tempo de pen\u00faria interna. O\u00a0governo, antes de &#8220;satisfazer a demanda interna\u201d, deve encontrar, antes de tudo, tempo e meios para provar que est\u00e1 enfrentando uma carestia.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, ele s\u00f3 pode distribuir alimento comprado a pre\u00e7o de mercado. Nenhuma desnutri\u00e7\u00e3o generalizada pode perturbar o com\u00e9rcio internacional \u2013 assim como, no tempo da carestia do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o podia atrapalhar o com\u00e9rcio ingl\u00eas na Irlanda.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nO termo &#8220;livre com\u00e9rcio&#8221; n\u00e3o significa mais apenas o desaparecimento dos direitos alfandeg\u00e1rios ou a obriga\u00e7\u00e3o de negociar, mas a elimina\u00e7\u00e3o de qualquer legisla\u00e7\u00e3o que aumente os custos das multinacionais ou impe\u00e7a sua expans\u00e3o e seus privil\u00e9gios, e isso, por mais cruciais que essas regras sejam para os pobres, os desempregados, os idosos, os doentes. Sem falar das economias locais e dos ecossistemas\u2026<br \/>\n\u00a0<br \/>\nPior ainda: as leis s\u00e3o sistematicamente substitu\u00eddas por outras vantajosas para os grandes grupos. O mesmo ocorre no caso do reconhecimento mundial da legisla\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos sobre patentes, em particular sobre patentes remetentes aos seres vivos, sem os quais a ind\u00fastria das biotecnologias n\u00e3o existiria; ou ainda no caso das disposi\u00e7\u00f5es que protegem os investimentos estrangeiros e tornam ilegal sua expuls\u00e3o do territ\u00f3rio, mesmo que destruam o meio ambiente ou a sociedade.<\/p>\n<p>As multinacionais s\u00e3o, hoje, nossos patr\u00f5es. O Planeta foi entregue a elas numa bandeja de prata, para que dele usufruam a seu bel prazer. Isso n\u00e3o acontece por acaso; trata-se da consequ\u00eancia necess\u00e1ria do desenvolvimento econ\u00f4mico no est\u00e1gio a que chegou, que ainda n\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nO desenvolvimento econ\u00f4mico pode, assim, ser definido como o encadeamento de perturba\u00e7\u00f5es cada vez mais acentuadas impostas a uma sociedade, antes autossuficiente, com o objetivo de constituir um para\u00edso, pelo menos tempor\u00e1rio, para as grandes empresas, em cujo seio elas aumentam, com toda liberdade, tanto sua competitividade quanto seus lucros, sem a m\u00ednima preocupa\u00e7\u00e3o com os insuport\u00e1veis custos sociais, ecol\u00f3gicos, econ\u00f4micos e humanos.<br \/>\n\u00a0<br \/>\nDigo tempor\u00e1rio, porque a economia mundializada instaurada pelo desenvolvimento \u00e9, por natureza, muito inst\u00e1vel e sua queda \u00e9 inevit\u00e1vel, com toda probabilidade iminente. Esse ser\u00e1 o est\u00e1gio final. Comportar\u00e1, certamente, muito sofrimento, mas poder\u00e1 oferecer tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o para que se evite uma cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica e, sobretudo, clim\u00e1tica, que poderia tornar o Planeta inabit\u00e1vel mais rapidamente do que se pensa. Ademais, isso poderia incitar-nos a reconsiderar os pressupostos b\u00e1sicos do desenvolvimento econ\u00f4mico e, talvez, criar um mundo inspirado nas comunidades de um passado mais humano e mais duradouro.<\/p>\n<p>(p\u00e1ginas 41 a 46)<\/p>\n<p>O livro inclui textos de:<\/p>\n<p>Claude Llena \u2013 Professor de Economia, Montpellier (Fran\u00e7a)<br \/>\n\u00a0<br \/>\nEdward Goldsmith \u2013 Fundador da revista The Ecologist, pr\u00eamio Nobel alternativo de 1991<br \/>\n\u00a0<br \/>\nFran\u00e7ois Brune \u2013 Professor, ensa\u00edsta e colaborador de Le Monde Diplomatique<br \/>\n\u00a0<br \/>\nFran\u00e7ois de Ravignan \u2013 Socioeconomista<br \/>\n\u00a0<br \/>\nFrederic Lemarchand \u2013 Pesquisador do Laborat\u00f3rio de Analise Sociol\u00f3gica e Antropol\u00f3gica do Risco (Lasar), Universidade de Caen<br \/>\n\u00a0<br \/>\nGilbert Rist \u2013 Professor do Instituto Universit\u00e1rio de Estudos do Desenvolvimento (lued). de Genebra<br \/>\n\u00a0<br \/>\nHassan Zaoual \u2013 Economista, Universidade do Litoral Cote d&#8217;Opale (Fran\u00e7a). Vice-presidente de Cultures Europe (Bruxelas)<br \/>\n\u00a0<br \/>\nIvan Illich \u2013 Autor de numerosos ensaios cr\u00edticos sobre o desenvolvimento (1926-2002)<br \/>\n\u00a0<br \/>\nJean-Pierre Berlan \u2013 Diretor de pesquisa do Instituto Nacional da Pesquisa Agron\u00f4mica (INRA), Fran\u00e7a<br \/>\n\u00a0<br \/>\nJos\u00e9 Bov\u00e9 \u2013 Sindicalista, membro da Conf\u00e9d\u00e9ration Paysanne<br \/>\n\u00a0<br \/>\nMajid Rahnema \u2013 Ex-diplomata, professor no Pitzer College, Claremont University, Calif\u00f3rnia<br \/>\n\u00a0<br \/>\nMarie-Dominique Perrot \u2013 Professora do Instituto Universit\u00e1rio de Estudos do Desenvolvimento (lued), de Genebra<br \/>\n\u00a0<br \/>\nMaurice Decaillot \u2013 Especialista em Economia Social<br \/>\n\u00a0<br \/>\nSamuel Sajay \u2013 Doutor em Ci\u00eancias da Administra\u00e7\u00e3o, colaborador de Ivan Illich<br \/>\n\u00a0<br \/>\nSerge Latouche \u2013 Professor em\u00e9rito de Economia na Universidade de Paris XI, co-presidente da associa\u00e7\u00e3o La Ligne d &#8216;Horizon<\/p>\n<p>Suleymane M&#8217;Baye \u2013 Doutor em Economia<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os artigos de Desfazer o desenvolvimento para refazer o mundo s\u00e3o o resultado do col\u00f3quio hom\u00f4nimo organizado em 2002, em Paris, pela associa\u00e7\u00e3o francesa La Ligne d&#8217;Horizon e a revista Le Monde Diplomatique e assumido pelo programa MOST (Management of Social Transformations), da Unesco. \u00a0 O objetivo do evento foi discutir o modelo econ\u00f4mico da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":1859,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":["post-1858","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-livros"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>DESFAZER o desenvolvimento para REFAZER o mundo - Vida e Aprendizado<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/desfazer-o-desenvolvimento-para-refazer-o-mundo\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"DESFAZER o desenvolvimento para REFAZER o mundo - Vida e Aprendizado\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Os artigos de Desfazer o desenvolvimento para refazer o mundo s\u00e3o o resultado do col\u00f3quio hom\u00f4nimo organizado em 2002, em Paris, pela associa\u00e7\u00e3o francesa La Ligne d&#8217;Horizon e a revista Le Monde Diplomatique e assumido pelo programa MOST (Management of Social Transformations), da Unesco. \u00a0 O objetivo do evento foi discutir o modelo econ\u00f4mico da [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/desfazer-o-desenvolvimento-para-refazer-o-mundo\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Vida e Aprendizado\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2012-02-23T02:00:00+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-08-21T18:10:21+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/desfazer.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"288\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"396\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Benedcto I. 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