{"id":2168,"date":"2012-09-17T00:00:00","date_gmt":"2012-09-17T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/ameaca-maritima\/"},"modified":"2026-08-21T15:17:39","modified_gmt":"2026-08-21T18:17:39","slug":"ameaca-maritima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/ameaca-maritima\/","title":{"rendered":"AMEA\u00c7A MAR\u00cdTIMA"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"265\" height=\"240\" src=\"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/erosaodacosta.jpg\" alt=\"\">Nem o sert\u00e3o vai virar mar nem o mar vai virar sert\u00e3o, apesar da profecia feita pelo beato Ant\u00f4nio Conselheiro aos sertanejos de Canudos no fim do s\u00e9culo 19, sob o sol forte do semi\u2011\u00e1rido baiano. Mas, em tempos de inquieta\u00e7\u00e3o global com o aquecimento do planeta, uma amostra do que a costa brasileira deve enfrentar foi desenhada por ge\u00f3grafos, ge\u00f3logos e ocean\u00f3grafos de 15 centros de pesquisa que acompanham a eros\u00e3o litor\u00e2nea h\u00e1 mais de 30 anos. O estudo faz o invent\u00e1rio das altera\u00e7\u00f5es no contorno do Brasil em v\u00e1rios pontos \u00e0 beira do Atl\u00e2ntico \u2013 um processo que tende a se acelerar, devido \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e \u00e0 conseq\u00fcente eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel dos oceanos.<\/p>\n<p>O trabalho \u2013 <i>Eros\u00e3o e Prograda\u00e7\u00e3o do Litoral Brasileiro <\/i>\u2013 \u00e9o mais detalhado diagn\u00f3stico j\u00e1 realizado sobre os 8,5 mil quil\u00f4metros da costa. Do Oiapoque ao Chu\u00ed, a pesquisa esquadrinhou altera\u00e7\u00f5es nas linhas litor\u00e2neas do pa\u00eds, mapeando n\u00e3o s\u00f3 a eros\u00e3o, mas tamb\u00e9m os avan\u00e7os do continente mar adentro. Coordenador do estudo, o professor de geografia marinha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Dieter Muehe explica o processo: &#8220;Em um segmento costeiro, se mais sedimentos s\u00e3o removidos do que repostos, h\u00e1 eros\u00e3o; ao contr\u00e1rio, se entram mais sedimentos do que saem, h\u00e1 avan\u00e7o da linha de costa&#8221;. \u00c9\u00a0a prograda\u00e7\u00e3o, em linguagem cient\u00edfica.<\/p>\n<p>O litoral brasileiro ganhou o desenho atual depois da \u00faltima glacia\u00e7\u00e3o \u2013 um dos per\u00edodos na hist\u00f3ria da Terra em que a diminui\u00e7\u00e3o da temperatura fez o volume das geleiras e das neves eternas nas altas cordilheiras aumentar. &#8220;O mar desceu cerca de 100 metros abaixo do n\u00edvel atual. H\u00e1 aproximadamente 15 mil anos, come\u00e7ou a subir, com oscila\u00e7\u00f5es, pequenos recuos e paradas. Formaram-se praias e lagunas em v\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es do que \u00e9 hoje a plataforma continental. H\u00e1 7 mil anos, atingiu o n\u00edvel atual&#8221;, explica Dieter Muehe. Nessa eleva\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a glacia\u00e7\u00e3o, a linha da costa recuou at\u00e9 80 quil\u00f4metros, chegando ao contorno hoje reproduzido no mapa do Brasil.<\/p>\n<p>A eros\u00e3o \u00e9 muito mais freq\u00fcente que a prograda\u00e7\u00e3o. Desta, um dos casos mais not\u00e1veis est\u00e1 na foz do Jequitinhonha, no munic\u00edpio baiano de Belmonte, onde a linha da costa engordou 500 metros, sugerindo uma rela\u00e7\u00e3o com o assoreamento do rio e o aumento do volume de sedimentos. Outros processos semelhantes s\u00e3o descritos no estudo coordenado por Muehe, publicado em livro pelo Minist\u00e9rio do Meio Ambiente com a chancela do Sistema de Observa\u00e7\u00e3o Global dos Oceanos (GOOS\/Brasil), vinculado \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (UNESCO), e da Comiss\u00e3o Interministerial para os Recursos do Mar, patrocinadora do levantamento.<\/p>\n<p>Tanto a eros\u00e3o quanto a prograda\u00e7\u00e3o tem, contudo, um ponto comum: em grande parte dos casos, a interven\u00e7\u00e3o humana se soma ao balan\u00e7o do mar no lento mas persistente trabalho de modifica\u00e7\u00e3o da linha costeira. Com impactos sociais e econ\u00f4micos, v\u00e1rios locais tiveram seus contornos transfigurados no s\u00e9culo 20. De norte a sul, o litoral exibe marcas de maus-tratos impostos pelos pr\u00f3prios brasileiros, seja por meio da urbaniza\u00e7\u00e3o desordenada da orla mar\u00edtima, seja por mera depreda\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p><b>\u00c1gua mole em pedra dura <\/b><\/p>\n<p>O adiantado processo de eros\u00e3o na orla do munic\u00edpio potiguar de Cai\u00e7ara do Norte ilustra como o homem acaba ajudando a modificar o litoral. Nos \u00faltimos 50 anos, a cidade teve tr\u00eas ruas tragadas pelas \u00e1guas, que avan\u00e7aram 300 metros sobre a terra \u2013 uma m\u00e9dia de seis metros por ano. A situa\u00e7\u00e3o tornou-se cr\u00edtica em 1997, quando a prefeitura decretou estado de calamidade p\u00fablica e obteve recursos federais para a constru\u00e7\u00e3o de oito estruturas de concreto armado (gabi\u00f5es) perpendiculares \u00e0 praia. A obra n\u00e3o produziu o efeito esperado, e a eros\u00e3o seguiu em frente. Com 6 mil moradores, a 149 quil\u00f4metros de Natal, Cai\u00e7ara do Norte continua perdendo terreno para o oceano.<\/p>\n<p>&#8220;Seria imposs\u00edvel uma provid\u00eancia como essa dar resultado sem o controle efetivo dos processos costeiros da regi\u00e3o&#8221;, afirma a ge\u00f3loga Helenice Vital, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Geodin\u00e2mica e Geof\u00edsica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Coordenadora no estado do estudo j\u00e1 citado, a professora aponta como causa do problema a falta de suprimento sedimentar, pois o local n\u00e3o tem rios que levem areia e lama para alimentar a praia. O oceano tamb\u00e9m n\u00e3o tem como contribuir, uma vez que, devido a falhas geol\u00f3gicas, a plataforma continental apresenta altos e baixos que impedem a passagem de sedimentos. &#8220;O mar vai continuar avan\u00e7ando&#8221;, avisa Helenice. &#8220;S\u00f3 h\u00e1 duas op\u00e7\u00f5es: fazer a engorda da praia ou recuar a cidade.&#8221;<\/p>\n<p>Caso cl\u00e1ssico de engorda est\u00e1 em Pi\u00e7arras, munic\u00edpio de 11 mil habitantes no litoral norte de Santa Catarina. A a\u00e7\u00e3o combinada de aterros em lagoas, obras no rio Pi\u00e7arras e constru\u00e7\u00e3o de uma avenida \u00e0 beira-mar precipitou a eros\u00e3o. O mar avariou estruturas vi\u00e1rias, desvalorizou im\u00f3veis e afugentou turistas. Nos anos 1980, a constru\u00e7\u00e3o de gabi\u00f5es n\u00e3o melhorou a situa\u00e7\u00e3o, por falta de estudos sobre o processo costeiro. Em 1999, um aterro com 800 mil metros c\u00fabicos de areia dragada do mar recuperou a praia, mitigando o problema. Outros munic\u00edpios catarinenses, como Barra Velha, Navegantes e Balne\u00e1rio Cambori\u00fa, tamb\u00e9m engordaram a orla para remediar males semelhantes.<\/p>\n<p>O pesquisador Ant\u00f4nio Klein, do Centro de Ci\u00eancias Tecnol\u00f3gicas da Terra e do Mar (CTTMar), da Universidade do Vale do Itaja\u00ed (Univali), v\u00ea a m\u00e3o do homem no recuo de at\u00e9 50 metros que ocorreu na linha costeira em Pi\u00e7arras: &#8220;\u00c9 a m\u00e1 urbaniza\u00e7\u00e3o associada a resultados de mudan\u00e7as globais: aumento de intensidade de ondas de tempestades e varia\u00e7\u00f5es do n\u00edvel do mar&#8221;, afirma. Ele observa que, se n\u00e3o h\u00e1 como prevenir, a sa\u00edda \u00e9 mesmo a engorda ou a constru\u00e7\u00e3o de molhes e espig\u00f5es, ap\u00f3s estudos. &#8220;E \u00e9 preciso manuten\u00e7\u00e3o. De tempos em tempos, em projetos de alimenta\u00e7\u00e3o de praias, temos de adicionar areia. Obras s\u00e3o paliativos. Local em eros\u00e3o permanecer\u00e1 em eros\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas esperadas pelos cientistas s\u00e3o mais uma contribui\u00e7\u00e3o humana nesse embate entre a terra e o mar. Embora resulte principalmente das emiss\u00f5es de poluentes dos pa\u00edses desenvolvidos, o aquecimento global promete bater em cheio na costa brasileira. Mas, por enquanto, seus impactos n\u00e3o podem ser previstos com exatid\u00e3o. &#8220;Os maiores problemas ocorrer\u00e3o em locais de baixa altitude, sujeitos a inunda\u00e7\u00e3o, como as regi\u00f5es de delta. As praias poder\u00e3o se ajustar ou n\u00e3o, dependendo do estoque de sedimentos dispon\u00edvel&#8221;, avisa Dieter Muehe. Ele antev\u00ea maiores estragos no norte e no nordeste, onde a plataforma continental avan\u00e7a com declividade mais suave mar adentro.<\/p>\n<p>&#8220;Quanto mais \u00edngreme for a zona submarina, em princ\u00edpio, menor ser\u00e1 o recuo da linha de costa. No sul e no sudeste, a declividade \u00e9 maior do que no norte e no nordeste&#8221;, assinala o ocean\u00f3grafo da UFRJ, acrescentando que outros fatores v\u00e3o condicionar a extens\u00e3o e o ritmo da investida do oceano. &#8220;A declividade deve ser vista como mais uma vari\u00e1vel do grau de risco potencial. Se a linha de costa for alta, como nas terras com fal\u00e9sias, o recuo ser\u00e1 muito mais lento e menor. A presen\u00e7a de recifes, comuns no nordeste, tamb\u00e9m representa obst\u00e1culo, como um quebra-mar natural.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o caso de praias nordestinas a\u00e7oitadas pelo mar aberto, como as de Macau, munic\u00edpio de 26 mil habitantes do Rio Grande do Norte. A for\u00e7a do Atl\u00e2ntico corr\u00f3i aos poucos a Ponta do Tubar\u00e3o, mantendo em alerta a Petrobras, que opera po\u00e7os terrestres de petr\u00f3leo no local. As causas s\u00e3o as mesmas da eros\u00e3o em Cai\u00e7ara do Norte, 50 quil\u00f4metros a leste: d\u00e9ficit de sedimentos na faixa litor\u00e2nea. Em 1993, quando os primeiros po\u00e7os do campo de Macau come\u00e7aram a jorrar, o mar estava a 800 metros. Atualmente, as ondas batem perto das instala\u00e7\u00f5es, levando a Petrobras a estudar sa\u00eddas, em parceria com universidades.<\/p>\n<p>Outro desaparecimento de praia que vem dispensando a m\u00e3o do homem \u2013 a a\u00e7\u00e3o antr\u00f3pica, na terminologia cient\u00edfica \u2013 acontece na ilha Grande, em Angra dos Reis, na regi\u00e3o sul-fluminense. Na praia de Lopes Mendes, o mar j\u00e1 penetrou tr\u00eas metros terra adentro, pondo \u00e0 mostra as ra\u00edzes das \u00e1rvores e escavando cada vez mais o terreno. Outro munic\u00edpio do estado \u00e0s voltas com a for\u00e7a do mar \u00e9 Maric\u00e1. Praias como Ponta Negra e Itaipua\u00e7u ficaram menores e tiveram v\u00e1rias constru\u00e7\u00f5es derrubadas por ressacas no fim dos anos 1990, por conta da ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o planejada da orla e da vulnerabilidade natural ante o oceano, que continua erodindo a costa.<\/p>\n<p><b>Mar\u00e9 cheia de riscos<\/b><\/p>\n<p>O alerta definitivo sobre o aquecimento global foi dado pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) no quarto relat\u00f3rio do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC, na sigla em ingl\u00eas), em fevereiro deste ano: at\u00e9 2100, a temperatura da atmosfera vai subir de 1,8\u00ba a 4\u00ba C. Nos extremos dessa margem de previs\u00e3o, op\u00f5em-se otimistas e pessimistas do mundo cient\u00edfico, enquanto os moderados cravam um progn\u00f3stico de 2,8\u00ba C. Todos concordam, por\u00e9m, que o fen\u00f4meno vai gerar altera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se limitam \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. Tempestades e estiagens devem tornar-se mais freq\u00fcentes, e os furac\u00f5es, mais intensos, aumentar\u00e3o o n\u00famero de inunda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio do IPCC n\u00e3o deixa d\u00favidas: &#8220;O aquecimento clim\u00e1tico \u00e9 inequ\u00edvoco e agora se torna evidente, a partir das observa\u00e7\u00f5es de acr\u00e9scimo nas temperaturas globais m\u00e9dias do ar e do oceano, derretimento disseminado de neve e gelo e eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel m\u00e9dio global do mar.&#8221; O\u00a0documento <i>Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica 2007: A Base da Ci\u00eancia F\u00edsica <\/i>\u00e9 fruto do trabalho de cientistas de mais de cem pa\u00edses. Confirmando uma apreens\u00e3o que inquietava o mundo desde o final do s\u00e9culo 20, o texto prev\u00ea que os oceanos subir\u00e3o de 18 a 59 cent\u00edmetros at\u00e9 2100, dependendo do comportamento do clima nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo passado, o mar subiu 17 cent\u00edmetros, numa escalada que se acelerou nos anos 1990. N\u00e3o h\u00e1 precedente de altera\u00e7\u00e3o t\u00e3o veloz na Terra, que esquentou 0,76\u00ba C desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, no s\u00e9culo 19. Na d\u00e9cada de 1990, as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE) saltaram de 6,4 bilh\u00f5es para 7,2 bilh\u00f5es de toneladas ao ano. Causadoras do aquecimento global, subst\u00e2ncias como di\u00f3xido de carbono e metano s\u00e3o lan\u00e7adas na atmosfera em decorr\u00eancia de pr\u00e1ticas associadas ao mundo contempor\u00e2neo, como a queima de carv\u00e3o, petr\u00f3leo e derivados, o desmatamento de florestas tropicais \u2013 os pulm\u00f5es verdes que restaram \u00e0 Terra \u2013 e a atividade agr\u00edcola.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o de camadas mais espessas de GEE na atmosfera aumenta de modo indesej\u00e1vel o efeito estufa \u2013 fen\u00f4meno natural, indispens\u00e1vel \u00e0 vida, que impede que o calor transmitido ao planeta pelos raios solares se dissipe no espa\u00e7o. Com a reten\u00e7\u00e3o excessiva da radia\u00e7\u00e3o nas partes inferiores da atmosfera, o ac\u00famulo de calor leva a altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que derretem geleiras e camadas de neve nas altas cordilheiras. Nesse ciclo, um dos resultados \u00e9 a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel dos oceanos, potencializada pela dilata\u00e7\u00e3o da \u00e1gua causada pelo aumento da temperatura. Outro agravante \u00e9 a acelera\u00e7\u00e3o da evapora\u00e7\u00e3o no mar, que tende a provocar mais tempestades e furac\u00f5es, alimentados por concentra\u00e7\u00f5es de vapor.<\/p>\n<p>Com poucas \u00e1reas costeiras abaixo do n\u00edvel do mar, o Brasil n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o desprotegido das mar\u00e9s do aquecimento global quanto pa\u00edses como Holanda e Bangladesh \u2013 na\u00e7\u00f5es que j\u00e1 se preparam para a perda de imensas faixas de terra e para grandes ondas migrat\u00f3rias. &#8220;Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o tenhamos vulnerabilidades&#8221;, adverte o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Carlos Nobre. Integrante da rede de cientistas que elaborou o relat\u00f3rio da ONU sobre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, ele chama a aten\u00e7\u00e3o para o risco de impactos em grandes cidades com \u00e1reas baixas, como Rio de Janeiro e Recife.<\/p>\n<p>Na capital fluminense, a eleva\u00e7\u00e3o do mar em 59 cent\u00edmetros cobriria 79 quil\u00f4metros quadrados de alagadi\u00e7os aterrados no s\u00e9culo 20, estima o Instituto Pereira Passos (IPP), da prefeitura. Isso equivale a 6,6% da \u00e1rea do munic\u00edpio \u2013 algo como um bairro de grandes dimens\u00f5es como Jacarepagu\u00e1, justamente o mais vulner\u00e1vel ao avan\u00e7o do oceano. No estudo que realizou, com base no relat\u00f3rio do IPCC, o instituto tamb\u00e9m fez simula\u00e7\u00f5es levando em conta o improv\u00e1vel derretimento de geleiras na Groenl\u00e2ndia e na Ant\u00e1rtida. Nesse caso, o mar subiria 1,5 metro e cobriria 145 quil\u00f4metros quadrados (12%) da cidade.<\/p>\n<p>Em praias como Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca, o aquecimento global prenuncia mais estragos do que as ressacas que costumam chegar \u00e0s pistas das avenidas litor\u00e2neas. Grande parte dos edif\u00edcios da orla carioca est\u00e1 fincada em locais tomados ao mar na segunda metade do s\u00e9culo passado. A redu\u00e7\u00e3o da faixa de praia nesses cart\u00f5es-postais da cidade \u00e9 a ponta de um problema que promete dar muita dor de cabe\u00e7a \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Em v\u00e1rios e extensos locais dessas \u00e1reas, o concreto e o asfalto cobrem pontos a que historicamente chegavam as maiores ressacas \u2013 o que leva a supor que o aumento do n\u00edvel do mar n\u00e3o vai dar tr\u00e9gua \u00e0 cidade.<\/p>\n<p><b>Oceano de desafios<\/b><\/p>\n<p>&#8220;O perigo n\u00e3o se restringe \u00e0 possibilidade de as cidades ficarem submersas&#8221;, diz o pesquisador do Inpe Jos\u00e9 Antonio Marengo. Meteorologista do Centro de Previs\u00e3o de Tempo e Estudos Clim\u00e1ticos (CPTEC) e tamb\u00e9m participante do mutir\u00e3o cient\u00edfico que p\u00f4s de p\u00e9 o relat\u00f3rio da ONU, ele manifesta preocupa\u00e7\u00e3o com impactos em obras de engenharia e na din\u00e2mica do meio ambiente litor\u00e2neo: &#8220;Com o n\u00edvel do mar mais alto, as ondas podem produzir eros\u00e3o em estruturas costeiras, assim como contaminar aq\u00fc\u00edferos com \u00e1gua salgada. No caso dos deltas de rios e dos manguezais, em todo o Brasil, o mar pode afetar ecossistemas costeiros de \u00e1gua doce&#8221;.<\/p>\n<p>Uma amostra do que pode ocorrer com ocupa\u00e7\u00f5es humanas \u00e0s margens das desembocaduras de grandes rios est\u00e1 no pontal de Atafona, munic\u00edpio de S\u00e3o Jo\u00e3o da Barra, no norte fluminense. Encravado num banco de areia na foz do rio Para\u00edba do Sul, o povoado come\u00e7ou a ser engolido pelo mar h\u00e1 meio s\u00e9culo, antes mesmo de os cientistas apresentarem ao mundo o fantasma do aquecimento global. Avan\u00e7ando metro a metro, as \u00e1guas j\u00e1 tragaram ruas de 14 quarteir\u00f5es e tomaram mais de 180 im\u00f3veis \u2013 casas, lojas, escola e posto de gasolina. Em ru\u00ednas ainda de p\u00e9, vivem fam\u00edlias de sem-teto prontas a bater em retirada quando o mar ruge forte e amea\u00e7a lamber mais terra.<\/p>\n<p>V\u00e1rios fatores naturais conjugam-se contra Atafona, onde a ocupa\u00e7\u00e3o humana nunca preservou dist\u00e2ncia prudente do Atl\u00e2ntico e do Para\u00edba. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 como afirmar que a eros\u00e3o tem causa \u00fanica, como a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. Os motivos est\u00e3o relacionados com ventos, ondas, mar\u00e9s e correntes litor\u00e2neas&#8221;, resume o ge\u00f3grafo Gilberto Pessanha Ribeiro. Professor das universidades Federal Fluminense (UFF) e do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), ele coordena o Projeto Atafona \u2013 uma parceria entre as duas institui\u00e7\u00f5es que realiza o mapeamento cartogr\u00e1fico e o levantamento evolutivo da eros\u00e3o que leva o lugarejo a encolher.<\/p>\n<p>A impossibilidade de fazer previs\u00f5es exatas s\u00f3 refor\u00e7a a necessidade de mais estudos. &#8220;N\u00e3o existem observa\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas sobre o n\u00edvel do mar no Brasil&#8221;, lamenta Marengo. Carlos Nobre adverte: &#8220;\u00c9 urgente realizar uma an\u00e1lise mais aprofundada dos impactos e da vulnerabilidade em v\u00e1rios cen\u00e1rios. E isso levando tamb\u00e9m em conta a maior probabilidade de tempestades severas sobre os oceanos, ressacas mais intensas e altera\u00e7\u00f5es nos fluxos de \u00e1gua doce para o mar, como resposta dos continentes \u00e0s mudan\u00e7as&#8221;. S\u00f3 assim o pa\u00eds poderia adotar pol\u00edticas p\u00fablicas para se adaptar \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es do planeta.<\/p>\n<p>&#8220;As estimativas recentes do IPCC indicam que o n\u00edvel do mar continuar\u00e1 a subir por muitos s\u00e9culos&#8221;, explica Carlos Nobre. Como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas ocorrem em longos per\u00edodos, a eleva\u00e7\u00e3o dos oceanos \u00e9 resultado de d\u00e9cadas de aquecimento global \u2013 e continuaria por largo tempo, ainda que a humanidade deixasse hoje, subitamente, de emitir gases de efeito estufa. O pesquisador do INPE observa que, de acordo com as estimativas mais pessimistas do IPCC, os oceanos subiriam mais de um metro neste s\u00e9culo, se as geleiras da Groenl\u00e2ndia derretessem. A hip\u00f3tese tem probabilidade diminuta, mas n\u00e3o est\u00e1 descartada entre os cientistas que estudam as mudan\u00e7as em curso na face da Terra.<\/p>\n<p>O professor Dieter Muehe afirma serem necess\u00e1rios n\u00e3o s\u00f3 estudos, mas tamb\u00e9m restri\u00e7\u00f5es a obras pr\u00f3ximas \u00e0 linha da costa. &#8220;O que se pode ir fazendo \u00e9 inibir a constru\u00e7\u00e3o em \u00e1reas de inunda\u00e7\u00e3o, deslizamento e proximidade excessiva do mar&#8221;, recomenda. Ele ressalva, por\u00e9m, que empreendimentos tur\u00edsticos n\u00e3o podem ser proibidos com base apenas em cen\u00e1rios incertos: &#8220;Para aumentar nossa capacidade de diagn\u00f3stico, \u00e9 fundamental iniciar monitoramentos cont\u00ednuos e integrados do regime de ondas, do n\u00edvel do mar e de vari\u00e1veis clim\u00e1ticas. Isso vai exigir ag\u00eancias espec\u00edficas e a defini\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis pela coordena\u00e7\u00e3o de coleta, interpreta\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o dos resultados&#8221;. O desafio \u00e9 grande, diretamente proporcional \u00e0 extens\u00e3o do litoral brasileiro.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.sescsp.org.br\/sesc\/revistas_sesc\/pb\/artigo.cfm?Edicao_Id=292&amp;Artigo_ID=4584&amp;IDCategoria=5221&amp;reftype=1\" target=\"_blank\">Portal SESCSP<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aquecimento global acelera eros\u00e3o na costa brasileira<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":2169,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-2168","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-meioambiente"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.6 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>AMEA\u00c7A MAR\u00cdTIMA - Vida e Aprendizado<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/ameaca-maritima\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"AMEA\u00c7A MAR\u00cdTIMA - Vida e Aprendizado\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Aquecimento global acelera eros\u00e3o na costa brasileira\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/ameaca-maritima\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Vida e Aprendizado\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2012-09-17T03:00:00+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-08-21T18:17:39+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/erosaodacosta.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"265\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"240\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Benedcto I. 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