{"id":2632,"date":"2013-03-14T00:00:00","date_gmt":"2013-03-14T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/acucar-sal-e-gordura-as-engrenagens-da-junk-food\/"},"modified":"2026-08-21T15:20:37","modified_gmt":"2026-08-21T18:20:37","slug":"acucar-sal-e-gordura-as-engrenagens-da-junk-food","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/acucar-sal-e-gordura-as-engrenagens-da-junk-food\/","title":{"rendered":"A\u00c7\u00daCAR, SAL E GORDURA: as engrenagens da \u201cjunk food\u201d"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"280\" height=\"206\" src=\"https:\/\/homologacaoariete.com.br\/vida-aprendizado\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/junk-food.jpg\" alt=\"\">Tenho um amigo que tenta me ensinar como \u00e9 o modo \u201cperfeito\u201d de comer uma determinada batata frita industrializada. \u201cVoc\u00ea coloca sobre a l\u00edngua, mas virada para cima, e deixa que as papilas gustativas entrem em contato com a batata. A\u00ed pressiona delicadamente, com os dentes, num crac. Ela vai se desmanchar em puro prazer.\u201d \u00c9\u00a0assim mesmo que ele fala e, ao falar, sua voz ganha solenidade. Ele fecha os olhos para demonstrar a intensidade da sua frui\u00e7\u00e3o. Em seguida, me pergunta: \u201cVoc\u00ea sentiu o crac, seguido pela explos\u00e3o de sabores\u201d?<\/p>\n<p>Meu amigo trata a batata como se fosse uma h\u00f3stia, e sempre achei gra\u00e7a da sua devo\u00e7\u00e3o por algo que vem dentro de um tubo, nos sabores mais bizarros, mas que, sim, desmancha na boca e d\u00e1 prazer. A <em><span>junk food<\/span><\/em> (comida e bebida tranqueira, porcaria e que faz muito mais mal do que bem) n\u00e3o \u00e9 a minha igreja. Embora j\u00e1 tenha lido artigos e livros e assistido a alguns document\u00e1rios sobre os m\u00e9todos da ind\u00fastria da alimenta\u00e7\u00e3o, que muito se parece com a do tabaco, eu n\u00e3o tinha uma ideia t\u00e3o precisa de que, ao expressar seu deleite, meu amigo transformava-se n\u00e3o apenas num consumidor, mas num produto. E num produto muito bem acabado de milhares de cientistas, psic\u00f3logos e marqueteiros a servi\u00e7o das corpora\u00e7\u00f5es de alimentos. Meu amigo, t\u00e3o inteligente, tornava-se o consumidor perfeito \u2013 ou o idiota perfeito.<\/p>\n<p>Os m\u00e9todos da ind\u00fastria de <em><span>junk food<\/span><\/em> foram dissecados pelo jornalista americano Michael Moss num livro-reportagem que acabou de ser lan\u00e7ado: <em>Salt Sugar Fat: How the Food Giants Hooked Us<\/em>. Em tradu\u00e7\u00e3o livre: \u201cSal, A\u00e7\u00facar, Gordura: Como os Gigantes da Comida nos Escravizam\u201d. Moss \u00e9 um rep\u00f3rter investigativo que ganhou o Pulitzer de 2010, o pr\u00eamio mais prestigioso dos Estados Unidos, pelo seu trabalho sobre a ind\u00fastria da carne. Em 20 de fevereiro, ele escreveu uma reportagem no The New York Times, abordando alguns dos principais t\u00f3picos do livro, que pode ser lida <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2013\/02\/24\/magazine\/the-extraordinary-science-of-junk-food.html?pagewanted=all&amp;_r=0\">aqui<\/a>. Para escrever sobre a ind\u00fastria de <em>junk food<\/em>, o jornalista afirma ter entrevistado mais de 300 pessoas, entre cientistas, marqueteiros e CEOs das grandes corpora\u00e7\u00f5es. Segundo ele, alguns estavam ansiosos para extravasar o que estava preso na garganta. Outros s\u00f3 falaram, com muita relut\u00e2ncia, depois de serem confrontados com algumas das milhares de p\u00e1ginas de relat\u00f3rios secretos obtidos de dentro da ind\u00fastria. Entre os relatos escabrosos, aparece inclusive o Brasil: um alto executivo de uma companhia de refrigerantes (demitido quando quis mudar os m\u00e9todos) conta como peregrinou pelas favelas brasileiras, para expandir o mercado a partir da estrat\u00e9gia de convencer pobres a consumir o que n\u00e3o precisam.<\/p>\n<p>Ao final da investiga\u00e7\u00e3o, o jornalista comp\u00f4s um retrato sombrio sobre os m\u00e9todos da ind\u00fastria para manter os consumidores cativos, apesar da epidemia de obesidade que atinge n\u00e3o s\u00f3 os Estados Unidos, mas parte do mundo. Michael Moss chega a uma conclus\u00e3o que, n\u00e3o fosse a qualidade da apura\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, soaria como teoria conspirat\u00f3ria: a intensidade, tanto da f\u00f3rmula qu\u00edmica quanto das campanhas de venda, torna as pessoas extremamente vulner\u00e1veis, sendo quase imposs\u00edvel resistir. Para Michael Moss, a <em><span>junk food<\/span><\/em> parece ser uma esp\u00e9cie de droga sintetizada a partir de tr\u00eas ingredientes: sal, a\u00e7\u00facar e gordura. Em seu trabalho, ele prova que CEOs, marqueteiros e cientistas sabem que est\u00e3o produzindo n\u00e3o apenas salgadinhos, doces e refrigerantes, mas adultos e crian\u00e7as com problemas card\u00edacos, hipertensos, diab\u00e9ticos e com uma s\u00e9rie de doen\u00e7as relacionadas, que ter\u00e3o a vida encurtada no final e limitada no meio. Mas o que vale s\u00e3o os lucros \u2013 e eles s\u00e3o cada vez mais superlativos.<\/p>\n<p>Entre as muitas declara\u00e7\u00f5es colhidas pelo jornalista, h\u00e1 algumas que se destacam pelo cinismo. \u201cEu otimizo sopas. Eu otimizo pizzas. Eu otimizo molhos para saladas. Nesta \u00e1rea, eu sou aquele que vira o jogo\u201d, diz Howard Moskowitz, uma lenda da ind\u00fastria, que h\u00e1 d\u00e9cadas vem \u201cotimizando\u201d produtos em baixa e transformando-os em armadilhas letais para homens, mulheres e crian\u00e7as, usando para isso muito dinheiro, equipes de primeira linha e pesquisa de ponta. O cientista assim afirma sua total falta de conflito por produzir morte: \u201cN\u00e3o existe quest\u00e3o moral para mim. Eu fiz a melhor ci\u00eancia que pude. Precisava sobreviver e n\u00e3o podia me dar ao luxo de ser uma criatura moral. Como pesquisador, sempre estive \u00e0 frente do meu tempo\u201d. Moskowitz estudou matem\u00e1tica e tem Ph.D em psicologia experimental em Harvard.<\/p>\n<p>A reportagem mostra como v\u00e1rios produtos, de diferentes corpora\u00e7\u00f5es, foram \u201cotimizados\u201d para dar ao p\u00fablico algo do qual ele n\u00e3o conseguiria escapar: o <em><span>\u201cbliss point\u201d<\/span><\/em> \u2013 que pode ser traduzido como o \u201cponto da felicidade\u201d. Para atingi-lo, \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o apenas encontrar o sabor, a textura e a quantidade precisa dos ingredientes, a maioria deles nocivo \u00e0 sa\u00fade, mas tamb\u00e9m investigar em profundidade os pontos de fragilidade de homens, mulheres e crian\u00e7as. Identificar as barreiras \u2013 e\u00a0quebr\u00e1-las uma a uma. As m\u00e3es prefeririam dar comida saud\u00e1vel para seus filhos? Ok, mas sua principal queixa \u00e9 a de que n\u00e3o t\u00eam tempo. Logo, \u00e9 o tempo o flanco descoberto a ser atacado. Como alcan\u00e7ar as crian\u00e7as diante da TV? Ora, com truques psicol\u00f3gicos como um slogan como este, de um produto que embala desejos de autonomia frente aos pais: \u201cTodo dia voc\u00ea faz o que eles dizem. Mas na hora do lanche \u00e9 voc\u00ea quem manda\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje a ind\u00fastria trabalha com a lista de \u201csete medos e resist\u00eancias\u201d \u00e0 batata frita de saquinho, identificada ainda em 1957 pelo psic\u00f3logo Ernest Dichter: 1)\u00a0voc\u00ea n\u00e3o consegue parar de com\u00ea-las; 2)\u00a0elas engordam; 3)\u00a0elas n\u00e3o fazem bem para voc\u00ea; 4)\u00a0elas s\u00e3o gordurosas e fazem sujeira; 5)\u00a0elas s\u00e3o muito caras; 6)\u00a0suas sobras s\u00e3o dif\u00edceis de guardar; 7)\u00a0fazem mal para as crian\u00e7as. A partir desta descoberta, o psic\u00f3logo sugeriu \u00e0 ind\u00fastria mudan\u00e7as como: em vez de usar a palavra \u201cfrito\u201d, usariam \u201cassado\u201d ou \u201ctostado\u201d; para n\u00e3o dar a ideia de excesso, os salgadinhos passariam a ser vendidos em embalagens menores. Em outras palavras: o caminho era \u2013 e continua sendo \u2013 ajudar o consumidor a n\u00e3o ter culpa de comer o que faz mal para ele.<\/p>\n<p>Como quando nos deparamos nos supermercados e lanchonetes com aquelas embalagens dizendo, em letras grandes: \u201cN\u00e3o tem gordura trans\u201d. Em alguns casos, o produto nunca teve gordura trans, mas, ao dizer o \u00f3bvio, ajuda-nos a eliminar a culpa, ao alimentar de fato a nossa autoilus\u00e3o de que podemos comer uma porcaria sem causar danos \u00e0 sa\u00fade. \u00c9 claro que o restante dos excessos, como a quantidade alarmante de s\u00f3dio e\/ou de a\u00e7\u00facar etc., figura em letras bem menores. Como disse um dos entrevistados na reportagem: \u201cO que precisamos fazer \u00e9 remover as barreiras, dando aos consumidores permiss\u00e3o para beliscar\u201d. Dito de outra maneira: \u201c\u00f3timo sabor, m\u00e1ximo prazer e m\u00ednima culpa com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade\u201d.<\/p>\n<p>Um dos casos esmiu\u00e7ados na reportagem mostra como uma empresa diminuiu a quantidade de s\u00f3dio de um determinado produto, marcando tr\u00eas gols ao mesmo tempo: fez bonito para o p\u00fablico, ao aparecer como uma companhia preocupada com a sa\u00fade; economizou milh\u00f5es de d\u00f3lares em sal, um insumo importante; e vendeu muito mais, porque os consumidores se autorizaram a comprar o produto por conta da redu\u00e7\u00e3o de s\u00f3dio e da mudan\u00e7a de imagem da empresa. Na pr\u00e1tica, em grande escala era uma economia consider\u00e1vel para o fabricante, mas a redu\u00e7\u00e3o, para o consumidor individual, era t\u00e3o pequena que em nada diminu\u00eda o impacto nefasto sobre a sa\u00fade. \u00c9\u00a0este o truque para nos fazer engolir, contentes e confortavelmente iludidos, aquelas embalagens que anunciam: \u201cAgora com menos s\u00f3dio\u201d. A m\u00e1xima das ind\u00fastria de <em><span>junk food<\/span><\/em> \u00e9 conhecida: sal, a\u00e7\u00facar e gordura \u2013 tira um, aumenta os outros dois e estampa no r\u00f3tulo aquele que diminuiu. Baseado em depoimentos e documentos internos, Michael Moss p\u00f4de afirmar: \u201cA inten\u00e7\u00e3o das companhias \u00e9 usar a ci\u00eancia n\u00e3o para responder \u00e0s quest\u00f5es de sa\u00fade, mas sim para evit\u00e1-las\u201d.<\/p>\n<p>Descobri que meu amigo tem poucas chances de resistir ao \u201ccrac\u201d da batatinha lendo a seguinte descri\u00e7\u00e3o sobre o fabuloso complexo de pesquisa de um dos fabricantes: \u201cPerto de 500 qu\u00edmicos, psic\u00f3logos e t\u00e9cnicos realizaram pesquisas que chegaram a custar at\u00e9 30 milh\u00f5es de d\u00f3lares ao ano. A equipe de cientistas concentrou a maior parte dos recursos em quest\u00f5es como a croc\u00e2ncia, a sensa\u00e7\u00e3o t\u00e1til na boca e o sabor de cada um dos itens. Suas ferramentas inclu\u00edam um equipamento de 40 mil d\u00f3lares que simulava uma boca mastigando, apenas para testar e aperfei\u00e7oar o produto\u201d. Com todo esse arsenal humano, cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, alcan\u00e7aram a Lua: o ponto perfeito de quebra do salgadinho diante da press\u00e3o m\u00e9dia de uma mordida humana.<\/p>\n<p>Enquanto tudo isso acontece, l\u00e1 na ponta h\u00e1 algu\u00e9m \u2013 na realidade centenas de milh\u00f5es de algu\u00e9ns \u2013 como o meu amigo, extasiado com a h\u00f3stia de uma ind\u00fastria que, diante do relato de Michael Moss, poderia encarnar uma vers\u00e3o contempor\u00e2nea do Mefist\u00f3feles. De fato, o poder desse personagem em nosso tempo seria bem vulgar, prosaico como tem sido nossos desejos. Steven Whiterly, um cientista da \u00e1rea de alimentos que escreveu um guia citado por Moss e intitulado <em><span>Why Humans Like Junk Food<\/span><\/em> (\u201cPor que Humanos Gostam de Junk Food\u201d), assim explica a epifania da batatinha frita de saquinho: \u201c\u00c9 a chamada \u2018densidade cal\u00f3rica evanescente\u2019. Se algo dissolve rapidamente (na boca), nosso c\u00e9rebro entende que n\u00e3o h\u00e1 calorias ali\u2026 E que podemos continuar comendo aquilo para sempre\u201d.<\/p>\n<p>No Brasil, o relato mais impressionante sobre a ind\u00fastria de <em><span>junk food<\/span><\/em> e a epidemia de obesidade em crian\u00e7as est\u00e1 no document\u00e1rio \u201cMuito al\u00e9m do peso\u201d, de Estela Renner. O filme foi lan\u00e7ado em novembro e est\u00e1 dispon\u00edvel na internet. Se voc\u00ea ainda n\u00e3o assistiu, re\u00fana a fam\u00edlia ou os amigos e clique <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.muitoalemdopeso.com.br\/\">aqui<\/a>. \u00c9 quase obrigat\u00f3rio. Ao peregrinar pelo Brasil, a diretora busca responder \u00e0 pergunta: por que 33,5% das crian\u00e7as brasileiras est\u00e3o acima do peso. Ou algo ainda mais alarmante: por que, pela primeira vez na hist\u00f3ria, h\u00e1 um n\u00famero crescente de crian\u00e7as com problemas de adultos \u2013 de cora\u00e7\u00e3o, de respira\u00e7\u00e3o e diabetes do tipo 2 \u2013, relacionados \u00e0 obesidade. \u201cEu abro a felicidade\u201d, diz uma crian\u00e7a, ao falar sobre o que sentia ao abrir um de seus produtos preferidos, demonstrando a rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre consumo e propaganda.<\/p>\n<p>Em \u201cMuito Al\u00e9m do Peso\u201d, testemunhamos meninos e meninas que adoram batatas em saquinhos, mas n\u00e3o reconhecem uma batata ao natural \u2013 ou que confundem um abacate com um piment\u00e3o. Em um dos depoimentos, uma m\u00e9dica conta como uma das crian\u00e7as que frequentam seu consult\u00f3rio precisa se esconder no banheiro da escola para comer uma fruta no recreio, com medo de ser hostilizada pelos colegas. N\u00e3o \u00e9 engra\u00e7ado, \u00e9 s\u00f3 triste. Entre os muitos achados de um filme feito para informar, provocar reflex\u00e3o e promover mudan\u00e7a est\u00e1 a possibilidade de visualizar a quantidade de a\u00e7\u00facar contida em alimentos presentes no cotidiano de quase todos. \u00c9 um susto quando enxergamos o a\u00e7\u00facar correspondente a uma lata de refrigerante, por exemplo, ou a gordura que h\u00e1 num saco de salgadinhos. Crian\u00e7as com dor nas pernas para caminhar e que j\u00e1 n\u00e3o podem jogar futebol ou brincar, meninos e meninas ofegantes, com problemas card\u00edacos, contam e se contam na tela como v\u00edtimas de uma epidemia que j\u00e1 lhes rouba a vida. Como a garota que j\u00e1 teve trombose, ou o guri pequeno e j\u00e1 obeso que esperneia diante de pais impotentes at\u00e9 ganhar salgadinho.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser pai e m\u00e3e diante de um ass\u00e9dio t\u00e3o poderoso e t\u00e3o insidioso como o da ind\u00fastria de <em><span>junk food<\/span><\/em>. Mas \u00e9 preciso ser pai e m\u00e3e. Segundo pesquisas apresentadas em \u201cMuito Al\u00e9m do Peso\u201d, crian\u00e7as com sobrepeso aumentam o consumo de alimentos com alto teor de gordura, sal e a\u00e7\u00facar em 134% quando expostas \u00e0 publicidade. A m\u00e9dia di\u00e1ria de perman\u00eancia diante da televis\u00e3o \u00e9 de cinco horas. Como disse um dos entrevistados no document\u00e1rio, referindo-se \u00e0 publicidade na TV: \u201cVoc\u00ea deixaria um vendedor formado em Harvard sozinho com o seu filho, dentro da sua casa, por tanto tempo\u201d?<\/p>\n<p>Document\u00e1rios como o de Estela Renner e livros como o de Michael Moss s\u00e3o oportunidades para pensar e entender o que est\u00e1 acontecendo, enquanto somos tonteados por apelos de consumo dentro e fora de casa. S\u00e3o tamb\u00e9m est\u00edmulos para romper a passividade e tomar posi\u00e7\u00e3o. No Brasil, as lutas v\u00eam sendo travadas em v\u00e1rios palcos: dentro de casa e das escolas, na Justi\u00e7a e no Legislativo. E as derrotas se acumulam. No final de janeiro, o governador de S\u00e3o Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), vetou a lei que restringia a publicidade de produtos aliment\u00edcios para crian\u00e7as. Pelo texto, aprovado pela Assembleia Legislativa em dezembro, se tornaria proibido veicular an\u00fancios de alimentos e bebidas pobres em nutrientes e com alto teor de a\u00e7\u00facar, gorduras saturadas ou s\u00f3dio, entre as 6h e as 21h, no r\u00e1dio e na TV. Tamb\u00e9m seria vetado o uso de celebridades ou personagens infantis na venda de alimentos, assim como o uso de brindes promocionais, como os vendidos com sandu\u00edches em redes de <em><span>fast food <\/span><\/em>(<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/saudeciencia\/91334-governo-mantem-publicidade-de-junk-food.shtml\">leia aqui<\/a>). Em 22 de fevereiro, outra derrota. Desembargadores do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1\u00aa Regi\u00e3o confirmaram a suspens\u00e3o da Resolu\u00e7\u00e3o 24 (RDC 24), da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (ANVISA). Na resolu\u00e7\u00e3o, a ANVISA (<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/noticias\/impresso,trf-libera-propaganda-de-alimentos-ricos-em-gordura-,1000378,0.htm\">leia aqui<\/a>) obrigava os fabricantes a colocar nos produtos o alerta de que o consumo em excesso poderia causar problemas de sa\u00fade como diabetes, hipertens\u00e3o e obesidade. Desde que a resolu\u00e7\u00e3o foi aprovada, em 2010, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de Alimenta\u00e7\u00e3o (ABIA) luta para derrub\u00e1-la \u2013 e tem conseguido, alegando que a propaganda \u00e9 \u201cuma forma de liberdade de express\u00e3o\u201d, que s\u00f3 pode ser alterada por lei do Congresso Nacional. No Congresso, o projeto de lei que trata da regula\u00e7\u00e3o da publicidade dirigida a crian\u00e7as se arrasta h\u00e1 11 anos (<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/defesa.alana.org.br\/post\/37826481761\/pl-5-921-2001-faz-11-anos-e-alana-promove-ato-em\">leia aqui<\/a>). Em 2013, como tem alertado o Instituto Alana (<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/defesa.alana.org.br\/post\/37721482535\/pl-5921-infografico\">veja aqui<\/a>), um dos mais combativos nesta luta, ao completar 12 anos terminar\u00e1 a inf\u00e2ncia do projeto \u2013 uma inf\u00e2ncia passada engatinhando de comiss\u00e3o em comiss\u00e3o. E mais uma gera\u00e7\u00e3o de brasileiros ter\u00e1 deixado de ser protegida.<\/p>\n<p>As sucessivas derrotas e procrastina\u00e7\u00f5es d\u00e3o uma ideia do tamanho do <em><span>lobby<\/span><\/em> da ind\u00fastria de <em>junk food<\/em>, assim como do marketing e da publicidade. Mas n\u00e3o acho que somos apenas v\u00edtimas do poder das grandes corpora\u00e7\u00f5es. Esta posi\u00e7\u00e3o, a de v\u00edtima \u2013 e agora falo de adultos, n\u00e3o de crian\u00e7as \u2013 tem uma boa quantidade de verdade, mas n\u00e3o \u00e9 toda a verdade. Se isso tudo d\u00e1 t\u00e3o certo \u00e9 tamb\u00e9m porque at\u00e9 mesmo o lugar de v\u00edtima pode ser confort\u00e1vel, afinal ele nos coloca na posi\u00e7\u00e3o de quem sofre a a\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o pode fazer nada para impedi-la. Mas neste caso podemos, sim, como mostra muita gente que tem lutado no espa\u00e7o p\u00fablico para isso \u2013 e muitos que t\u00eam mudado sua rela\u00e7\u00e3o com o consumo, com a publicidade e com a comida, botando limites dentro de casa e indo para as escolas debater. Em um texto sobre o document\u00e1rio (<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/blogsemreservas.wordpress.com\/2013\/02\/22\/muito-alem-do-peso-na-consciencia\/\">leia aqui<\/a>), chamado \u201cMuito al\u00e9m do peso (na consci\u00eancia)\u201d, Viviane Zandonadi, jornalista especializada em gastronomia, diz: \u201cAfinal, se somos o que comemos e n\u00e3o sabemos o que comemos, o que \u00e9 que somos\u201d?<\/p>\n<p>O que nos falta, talvez, seja nos reapropriarmos do nosso pr\u00f3prio poder \u2013 inclusive o do voto. E compreender que escolher \u00e9 um ato humano profundo, que determina n\u00e3o s\u00f3 o que pegamos na prateleira, mas quem somos na vida. Vale a pena perceber que, se tiv\u00e9ssemos qualquer limite para o nosso prazer imediato, a <em><span>junk food<\/span><\/em> jamais se tornaria o problema que \u00e9. Se tanto valorizamos o indiv\u00edduo e a individualidade, \u00e9 preciso n\u00e3o empurrar para o outro quando nossas m\u00e1s escolhas se revelam um desastre. As responsabilidades s\u00e3o m\u00faltiplas e com diferentes propor\u00e7\u00f5es \u2013 e a ind\u00fastria tem que responder pelo que fez e faz, especialmente no que se refere \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o ou \u00e0 omiss\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Mas, neste embate, tamb\u00e9m desempenhamos um papel ativo \u2013 e ele \u00e9 mais profundo do que engolir mais ou menos porcaria. Se a <em>junk food<\/em> pode ser considerada uma droga de comida, o que nos leva at\u00e9 ela \u00e9 muito mais complexo \u2013 e por isso, mais dif\u00edcil de mudar.<\/p>\n<p>Em sua an\u00e1lise, Michael Moss afirma: \u201cSe os americanos beliscassem <em><span>(junk food)<\/span><\/em> apenas ocasionalmente e em poucas quantidades, n\u00e3o ter\u00edamos hoje o enorme problemas que temos. Mas por causa do tanto de dinheiro e de esfor\u00e7os investidos por d\u00e9cadas aperfei\u00e7oando esses produtos, e ent\u00e3o os vendendo incansavelmente, os efeitos j\u00e1 s\u00e3o praticamente imposs\u00edveis de reverter\u201d. Concordo que l\u00e1 ou aqui a mudan\u00e7a \u00e9 dif\u00edcil, bem dif\u00edcil at\u00e9, mas ainda assim temos escolha. Se \u00e9 importante desnudar a racionalidade perversa da ind\u00fastria de <em>junk food<\/em> e seus m\u00e9todos inescrupulosos, tamb\u00e9m \u00e9 importante desvelar nossos pr\u00f3prios mecanismos, do contr\u00e1rio nos livramos de uma armadilha para cair em outra. No fundo dessa hist\u00f3ria s\u00f3rdida, desse emaranhado de <em>lobbies<\/em> e de bilh\u00f5es de d\u00f3lares, o que tamb\u00e9m \u00e9 um participante ativo desse jogo \u00e9 a nossa rela\u00e7\u00e3o com a vida. \u00c9 de uma rela\u00e7\u00e3o de consumo e do imperativo do gozo \u2013 t\u00e3o imediato quanto fugaz \u2013 que se trata.<\/p>\n<p>Para mim, a melhor cena de \u201cMuito Al\u00e9m do Peso\u201d, a mais reveladora e profunda, \u00e9 a de uma menina de olhos muito tristes contando que sua fam\u00edlia sempre reza para agradecer pela comida, pedindo que n\u00e3o falte nada em sua mesa. Perguntam a ela, ent\u00e3o: \u201cFalta alguma coisa na sua vida\u201d? E a menina de olhos muito tristes responde, alcan\u00e7ando muito al\u00e9m do peso, dos m\u00e9todos e das estat\u00edsticas:<\/p>\n<p>\u2013 Falta sentido.<\/p>\n<p>Fonte: <a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/revistaepoca.globo.com\/\/Sociedade\/eliane-brum\/noticia\/2013\/03\/acucar-sal-e-gordura-engrenagens-da-junk-food.html\">\u00c9poca<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que colocamos em movimento ao abrir um saquinho de batatas fritas ou um refrigerante? 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